Don’t tell them, Ana

Ana não falava.

Não que fosse muda ou algo do tipo. Simplesmente parou de falar de uma hora para outra, no alto de seus 11 anos. Por que não fala mais, Ana? Os pais nutriam a esperança de ser algo próprio da idade, enquanto os tios tratavam de culpar a deletéria influência da TV e dos games violentos. Os amigos, por sua vez, desconfiavam se tratar de alguma promessa, exercício de meditação oriental ou qualquer outra modinha pequenoburguesa. Já não é o bastante, filha? Por que faz isso conosco?

Incontáveis médicos, psicólogos, psiquiatras, diagnósticos discutíveis e medicações experimentais depois, conformaram-se, pois, com a sua condição silenciosa.  Preferiram acreditar que Ana sentia que nada havia a dizer e resolveu, por si mesma, se calar. Aos poucos, provando a incrível capacidade de as pessoas moldarem-se a qualquer tipo de situação, acabaram se acostumando e até mesmo se esqueceram de como era a sua voz. Escreve neste papel se estiver sentindo ou precisando de algo, filha. O cotidiano daquela confortável e pacata casa de classe média ajustou-se àquela idiossincrasia.

Ana absorta em si mesma. Caminhava a passos rápidos rumo ao colégio, olhando indiferentemente para adiante, como que cumprindo um estrito roteiro pré-definido, dia após dia. Ana estática. Passava horas de olhos abertos na cama antes de dormir, vislumbrando estrelas e constelações imaginárias na parede de seu quarto. O que consegue enxergar daí, filha? Ana desesperada. Sentia as lágrimas brotando nos olhos sem nenhum porque ou aviso, entre suspiros e soluços mal-contidos. Ana… onde você está Ana?

Uma manhã de março, como todos os dias, a família se reunira na sala de jantar para o café. Mesa farta, com os pães, torradas e geleias simetricamente dispostos, dividindo o espaço com o leite, café e o suco de laranja. Na cabeceira, como de praxe, o patriarca servia a todos com um sorriso contido de uma bondade guardiã. A esposa a seu lado acompanha todos os movimentos com leveza e um olhar de gratidão. Estão todos lá, mas e onde estará Ana? Filhinha, larga essa colher e vá lá chamar a sua irmã!

Mas antes que a menina descesse da cadeira, Ana aparece no meio da sala. Estática, calada como sempre, mas desta vez diferente. O que significa isso, Ana? Por que está usando esse vestido de quando era criança? O vestido rosa desbotado encolhia-se em seu corpo, deixando a maior parte dos braços e pernas descobertas. A mesa silencia e todos olham para Ana, que permanece imóbel, com os braços rente ao corpo e um olhar vazio por sobre a mesa. O que está olhando, minha filha? O que está acontecendo?

Com certa expressão de resignação, a adolescente se vira para o pai. Franze a testa, o rosto, fecha os olhos e parece fazer uma força descomunal que chega a corar. As lágrimas mais uma vez brotam em profusão, enquanto as veias da fronte saltam a ponto de explodir. Faz movimentos como que querendo regurgitar desesperadamente algo. Encolhe-se ao peito, levanta a cabeça para mirar nos olhos espantados do patriarca e, com um fio de voz, muito baixo, quase como um sussurro rouco, consegue pronunciar, entre engasgos e soluços: “Chega!”. Em um lance rápido, alcança a faca sobre a mesa e, em um só movimento, rasga a própria garganta de ponta a ponta.

Ana, ao chão, sangra. Seu silêncio agora é de toda a família, perplexa num profundo choque que não é quebrado nem com o pranto agudo das crianças. Ana, Ana, Ana, só conseguia repetir mecanicamente o pai, como se assim pudesse fazer todo aquele sangue retornar ao seu corpo e minimizar aquela culpa.

Mas Ana, que não falava, agora só poderia ser enterrada, como suas palavras há muito já haviam sido.

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Um comentário em “Don’t tell them, Ana

  1. Gisele disse:

    Fiquei emocionada, Diego… Sem palavras tal como sua Ana,,,

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