Roleta russa

A cabeça já pendia zonza de tanto vermute, cerveja e outras bebidas inidentificáveis. Na boca, um gosto amargo de cinza. Os sons e ruídos ao seu redor mesclavam-se em apenas um denso bloco sonoro que espancava seus tímpanos. A fumaça recobria o ambiente conferindo um aspecto onírico àquilo tudo. Talvez, pensou, fosse tudo mesmo um sonho. A mesma sensação que tinha diariamente nos últimos dez anos, de assistir a si próprio num filme B da madrugada. Como coadjuvante.

“_Acorda meu chapa, é agora mesmo que a festa vai começar de verdade!”. Levantou e abanou a cabeça, esforçando-se para mantê-la ereta. Que diabos estava fazendo ali? Quem eram aquelas pessoas? O homem à sua frente tinha os braços cobertos de tatuagem, estava sem camisa e usava apenas um jeans surrado. Gritava feito louco como se estivesse possuído. Ao lado, tombada na cadeira e com os braços estendidos sobre a mesa, uma garota de cabelo azul repetia, aos berros, tudo o que aquele homem gritava. Ao redor, figuras enigmáticas tinham seus rostos escondidos pela penumbra.

O suor escorria pela testa e fazia seu cabelo grudar no rosto. Aqueles dias de verão deixam as pessoas loucas, pensou. Não era isso o que faltava à sua vida? Um pouco de loucura? Pelo menos era o que todos lhe diziam. Nunca soube realmente o que significaria aquilo. Por que as pessoas buscariam tanto a insanidade num mundo já tão maluco? Seria essa a expressão da nossa insatisfação tão latente e ao mesmo tempo tão incontornável, inexorável… ou isso já era o álcool subindo à cabeça? Teria diferença?

“_Não dorme agora não, baby. A festa agora é tua, porque hoje, meu irmão, tu é a estrela!” bradou aquela estranha figura, botando mais um copo à sua frente. Um copo americano, com algo incolor dentro. Ele hesitou um pouco, mas acabou pegando o copo, entornando a bebida em um só gole. A aguardente desceu de uma vez, rasgando e queimando a garganta. Bateu o copo na mesa com violência, arfando. “Hoje tu não é só mais um, hoje tu é o protagonista, o nosso heroi principal”, sussurrou o homem com a boca colada em sua orelha. Pôde sentir o hálito alcoólico e de muitos cigarros que exalava.

O homem então se afastou um pouco, colocou a mão direita para trás, sorriu, e puxou da calça um velho 38 de aparência enferrujada. Com a outra mão sacou do bolso da frente da calça uma bala reluzente e, vagarosamente, a acomodou no tambor da arma, girando-o antes de fechar. “Hoje, meu amigo, tu finalmente vai viver intensamente cada segundo”, falou, desta vez  mais baixo, enquanto engatilhava. Cada vez mais, seu tom de voz baixava e adquiria um ar mais sério e grave. Colocou o 38 no centro da mesa e o empurrou para a sua frente, cruzando os braços. “Não nos decepcione, brother”.

Ele olhou ao redor e percebeu que a música, os ruídos, as conversas, tudo havia cessado. O homem tatuado, a garota de cabelo azul e até mesmo as figuras sombrias o fitavam com expectativa. O suor escorria de seu rosto mais intensamente, empapuçando os cabelos e a barba rala. Encarou então o revolver e mirou ao redor, tentando ver os olhos de cada um. Ninguém se mexeu. “Quer saber? Foda-se, não tenho mesmo muito a perder!”, ele disse pegando a arma e apontando para a própria cabeça. Os olhos do homem à sua frente brilhavam de entusiasmo e a garota fechou as mãos na própria boca, como que sufocando um grito de alegria.

Por milésimos de segundos toda a sua vida sem sentido passou diante de seus olhos, num clichê batido, porém real. Isso acontece mesmo, pensou. Apertou e pôde ouvir minuciosamente o gatilho acionando o martelo e fazendo rodar o tambor, como que se o tempo entrasse em suspensão. “Clic”, fez a arma. Uma explosão de vivas tomou conta do lugar. “Isso, garoto! Tá se sentindo vivo agora?” gritou o homem, chacoalhando seu ombro freneticamente.

“Agora é a minha vez, né?”, perguntou a figura, pegando o 38 e o pressionando contra o próprio queixo. Arregalou os olhos como se pressentisse o que ocorreria nos próximos segundos. “Mas não”, disse, baixando a arma, “hoje, a noite é toda tua, meu chapa”, falou, frisando com certa ironia a palavra “chapa” e colocando novamente o revolver à sua frente. O silêncio novamente tomou conta do lugar.

Ele então pegou o revolver, já tremendo, e levou à cabeça. Apertou o gatilho antes que pudesse pensar em algo que o fizesse se arrepender. “Clic”. Mas desta vez não houve gritos de comemoração. Todos continuaram imóveis e em silêncio. O homem pegou novamente o 38, engatilhou sem mover o tambor e colocou em sua mão: “De novo”. Agora já não era apenas suor que encharcava seus cabelos, mas lágrimas também escorriam sobre o rosto. Não sabia exatamente porque elas caíam, não havia nada a perder. Talvez, apenas a expectativa de ganhar, mas era contra isso que lutava há tempos. Era isso a vida? Uma roleta russa sem chances de se sair vivo? “Clic”. “De novo”, ordenou o homem. “Clic”. Faltavam apenas duas tentativas. Só mais duas.

“Curte o momento, baby, ele é só seu”, sussurrou o homem com um tom irônico, com a boca quase colada à sua. “E aperta de novo”. Ele então já não tremia nem chorava. Pegou o revolver com resignação e até certo ódio e apertou, torcendo para que, talvez, seu sangue e miolos espirrassem em cima de todos eles. “Clic”. Quinto tiro. Antes que o homem tomasse novamente o revolver, porém, ele mesmo engatilhou a arma e apertou, fechando os olhos com força e esperando o inevitável. “Clic”. Abriu os olhos com espanto, sem entender o que aconteceu. Que porra é essa? Ele teria tirado a bala sem que ninguém percebesse? Era aquilo tudo alguma espécie de truque? A garota de cabelo azul apenas o olhava e sorria pateticamente.

O homem então pegou o revolver, abriu o tambor e retirou a bala, intacta, pousando-a em pé sobre a mesa. Um milagre? Até poderia ser, se acreditasse nessas coisas. “Acho que é a tua hora de viver, brother, porque tu já morreu muitas vezes”, disse-lhe, acendendo um cigarro na boca e sumindo com a fumaça da baforada.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s