Apenas mais uma história de monstros

Nunca achei realmente que alguém fosse acreditar. Mesmo quando tentava chamar a atenção dos adultos, aos berros. Aos poucos, porém, a raiva e a irritação sumiram e fui me acostumando com a ideia. Medo nunca tive. Nem mesmo naquela noite em que o colchão tremeu e, fascinado, o vi pela primeira vez. Desci lentamente, agachei ao pé da cama e­­­­­­­, na escuridão do quarto, consegui ver o contorno da cabeça, cercado por longos pêlos felpudos e a protuberância do focinho cuja ponta se destacava no breu. A respiração era lenta e pesada.

Na manhã seguinte, já não estava ali. Teria saído pela janela? Ou tornara-se invisível para que ninguém mais o visse? De dia simplesmente deixava de existir, para só reaparecer quando a claridade se fosse. Seu mundo se resumia às fronteiras das sombras de meu quarto.  No início não sabia se podia me entender. “O que é você? Cadê seus pais?” Apenas me olhava. Aos poucos, compreendi que, embora não falasse, podia me entender perfeitamente.

Os dias se passaram e nossos encontros se tornaram frequentes. Quase todas as noites eu me sentava ao lado da cama para conversar.  Ele me respondia com os olhos. Lançava um olhar de curiosidade quando eu vinha lhe contar o que havia acontecido no colégio. Mirava-me com ar de reprovação e balançava a cabeça quando eu vinha reclamar das notas. Zangava-se quando lhe contava dos valentões da escola que, injustamente, me batiam e eu podia jurar que um dia chegou a esboçar um sorriso quando lhe contei da menina pela qual estava perdidamente apaixonado. É certo que deve ter se aborrecido nos pares de anos seguintes, pois esse tema quase que monopolizava nossas conversas.

Às vezes, quando o sono me vencia e eu me esquecia de nossos encontros, fazia questão de balançar a cama para mostrar que estava ali e demonstrar seu desagrado. Aí então eu falava com ele deitado mesmo, esticando o braço para sentir-lhe roçar o focinho na minha mão. “Hoje a professora perguntou o que queríamos ser quando crescêssemos… Nunca havia pensando nisso, não é engraçado? Mas as respostas são sempre as mesmas… Astronauta, jogador de futebol, explorador… Bom, mas eu nem sei… Você tem sorte, não precisa se preocupar com essas coisas, só em ficar aí embaixo no escuro…”. Respondeu com um suspiro longo, que talvez indicasse uma insatisfação com sua condição de monstro.

Um dia, perto das férias, cheguei em casa correndo. Passei pela cozinha sem falar com ninguém, ignorando o jantar sobre a mesa, tranquei a porta do quarto e joguei a mochila sobre a cama. Sentei no chão e olhei para ver se ele estaria lá. Estava, como sempre, embora nem tivesse anoitecido ainda. “Ela não gosta de mim… Sou um idiota mesmo, não é? Eu fazia tudo por ela! Gastava meu dinheiro do lanche com ela, fazia suas lições…”. As lágrimas brotavam dos olhos e molhavam meus joelhos. “Vou morrer, não aguento isso, só penso nela…”.  Ele suspirou de maneira forte e rápida, balançando a cabeça como sempre fazia quando contrariado. Mas logo veio acariciar meu braço com o focinho, tentando me consolar.

Não, eu não estava sendo dramático. Pensava realmente que poderia morrer de amor como algum poeta romântico mirim do século XIX.  É interessante como, no começo da vida, as coisas são envolvidas de uma certa intensidade e como há um sentido de urgência que nos toma o peito. Ele decerto entendia isso. Podia perceber em seus olhos que, ao contrário das outras pessoas, me compreendia…

Algum tempo depois, comecei a sentir de medo de perdê-lo. Foi quando tomei noção da finitude das coisas e aprendi que nada dura para sempre. Olhava para debaixo da cama e suspirava aliviado quando conseguia distinguir seus olhos no escuro. “Prometa-me que nunca vai me deixar? Nunca vai embora?”, cheguei a dizer, mesmo sabendo a resposta. Ele, pela primeira vez, desviou seus olhos dos meus e baixou a cabeça. De modo que não me surpreendi naquela noite quando o chamei e não houve resposta. Desci da cama, me ajoelhei, levantei o lençol que pendia sobre o colchão e nada. Sim, eu já esperava por aquilo.  O que não impediu que meu peito se apertasse e nó contorcendo minha garganta. Entre lágrimas, percebi naquele momento que havia crescido.

Confesso, com medo de parecer previsível, que já o esperava por aqui, mesmo depois de tantos anos. Assim, ontem, quando os meus netos saíram do quarto e as enfermeiras me deixaram em paz, já sabia que estava ali embaixo antes mesmo que fizesse a cama balançar. Não posso mais me ajoelhar no chão com todos esses fios enfiados em mim, mas consegui sentir sua respiração com meu braço. Ah, tanta coisa a lhe dizer, mal posso esperar! É notável como tudo ganha uma certa intensidade e um sentido de urgência a essa altura da vida.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s