Da dura poesia concreta de tuas esquinas

Temos aqui então um protagonista. Não tão jovem, mas também não tão velho. Um rosto da multidão a procura de algo que não sabe exatamente o que é.

Não percebera o quanto esfriara aquela noite. Como sempre, estava desprevenido, com um jeans e apenas uma camiseta leve. Tão logo chegou à calçada, sentiu a cada vez mais rara garoa pousar-lhe na face. Mas nada que o incomodasse demais. Na verdade, gostava da garoa fina, do frio intenso que, mais hora menos hora, tomava a cidade. Nem mesmo reclamava do vento cortante que sibilava e fazia arder a orelha. 

Cultivava uma verdadeira paixão pelo aspecto noturno da metrópole. Os pontos cintilantes ao fundo traçavam um quadro lúdico da pequenez humana diante da grandiosidade do mundo, gostava de filosofar. Até mesmo a tão característica solidão experimentada no meio da massa urbana, aquele processo de isolamento coletivo, era-lhe de certo modo agradável. 

Sim, amava tudo aquilo.

A cidade e seus personagens noturnos. As prostitutas decrépitas na esquina. O traficante mequetrefe oferecendo uma pedra. O andarilho sem rumo. O bêbado, trôpego, expulso do último boteco aberto. Estava diante de uma verdadeira enciclopédia humana, um conjunto fabuloso de histórias, trajetórias que, fossem cuidadosamente coletadas e analisadas, renderiam teses e descobertas psíquicas, psicológicas, sociais e antropológicas. Talvez o segredo do mundo estivesse ali. Na noite fria e escura de São Paulo. 

Pausa. Expectativa.

“Ei moço, me vê um cigarro, por favor”. A voz o despertara bruscamente das divagações que a megalópole suscitava. Olhou para o lado tentando distinguir o autor daquele pedido. Achou tratar-se de um mendigo, mas viu que não se parecia com um. Era um homem normal, até um pouco parecido com nosso protagonista. Cabelos pretos, curtos, barba feita, alto, enfim, poderia ser muito bem um colega da firma. “Me desculpa meu chapa, mas não fumo”, respondeu, tentando ser gentil diante daquela negativa.  

O homem, porém, pareceu contrariado. “Estou aqui te pedindo apenas um cigarro, com toda gentileza e educação, não esperava ser tratado com tamanha deselegância”, disse o homem enquanto coçava o queixo de forma enigmática. A voz ganhava um tom grave e ameaçador.  Nosso personagem divagador tentou se desvencilhar daquela situação incômoda, mas aquela estranha figura obstacularizava-lhe o caminho. O jeito era apelar para a diplomacia:

“Olha amigo, como eu já te disse, não tenho nada”, disse ao homem, forçando uma aparente calma, mas não conseguindo esconder um certo nervosismo. “Se eu tivesse certamente não te negaria”, falou ainda, esboçando um sorriso amarelo.

Pausa. As luzes se apagam. Vazio.

Abriu os olhos com dificuldades quando levantou a cabeça do chão. Sentia um gosto metálico na boca. De bruços, viu uma poça vermelha se formar ao seu redor. Tentou se levantar, mas uma pressão violenta no abdômen o fez retornar rapidamente ao solo. Olhou para cima e pôde ver o homem com um semblante transtornado. As veias do pescoço e da fronte saltavam, os olhos injetados se tingiam de vermelho e a boca entreaberta cuspia durante os berros.

“Como você ousa negar um cigarro a Deus, seu filho da puta? Verme imprestável, vai arder no fogo do inferno!”, vociferava o nosso estranho antagonista enquanto desferia chutes e golpeava o nosso personagem com selvageria. “Herege filho da puta! Filisteu!”, berrava,  e então dizia: “Eu sou Deus! Ouviu bem? Deus!”. Tentava se encolher para amenizar o impacto dos golpes, mas não conseguia. Pôde ouvir o estalido de uma costela partindo, em um rompante lancinante de dor.

Silêncio. Alívio.

Percebeu que os golpes terminaram quando seu algoz levou a mão ao ventre, arfando. Estava exausto. “Tomanocú”, disse, cuspindo em sua direção antes de se erguer, alisar calmamente a camisa e aparar os fios rebeldes da cabeça que se desalinharam com a sucessão de movimentos bruscos. Saiu então caminhando, onipotente, desaparecendo entre as ruas escuras como se nada houvesse ocorrido.

Do chão, gemendo, nosso protagonista mal conseguia abrir os olhos. Mas conseguiu notar quando uma senhora se aproximou com um pequeno lenço branco para enxugar-lhe o rosto. Entre o turbilhão de ódio, espanto e dor, aquilo realmente comoveu-lhe. Incrível. Do meio da selva de pedra de violência e barbárie, a megalópole esconde seus traços sutis, gentis, humanos, filosofou, mesmo sabendo que aquilo soara como um guia picareta de auto-ajuda de última categoria. Não importa. Quem disse que não existe amor em SP?

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