O presente

E então ele me disse assim: “Parabéns! Gostaria de te dar um presente, mas você sabe, não tenho dinheiro”. Pelo menos é como eu me recordo, depois de tanto tempo. Bom, é desse jeito que gosto de lembrar. “Para uma moça, essa idade é importante, você merecia um presente à altura”, continuou, franzindo a sobrancelha de forma desajeitadamente solene que me fez gargalhar. A realidade, porém, é que eu não ligava nada para a festa de debutante, ou essas convenções sociais antiquadas que, em uma família tradicional, embora decadente, eram dolorosamente obrigatórias.

“Não precisa de dinheiro”, disse-lhe. “Já que é poeta, me dê um poema”. Contrapunha-lhe o ar pretensamente solene com um tom arrogante não menos falso. “E, se é bom mesmo como insiste em dizer, escreva aí agora”. A fala dura e imperativa era quase uma ordem, que eu dizia de queixo erguido e olhando para baixo. Mas ele, para minha irritação, também falsa, apenas riu-se, balançando a cabeça. Aquele espírito indômito, eu já sabia, não poderia dobrar como fazia usualmente a outros. “Não é assim, pequena”, ele respondeu, ainda rindo. “Não funciona desse jeito, de supetão, tem que deixar a inspiração vir, sem pressão”. Sempre terminava as frases arrastando as últimas sílabas, maliciosamente, o que me deixava ainda mais furiosa. Só na aparência, claro.

“Se não consegue, é porque não gosta mesmo de mim”, disse-lhe, mesmo sabendo da inverdade disso. Ele então olhou para mim alguns segundos, em silêncio. Parou de sorrir e adotou um ar grave, como poucas vezes havia visto em seu rosto de garoto malandro. “Tudo bem, vamos fazer o seguinte: te dou uma palavra, mas só uma palavra”. Fiz cara de indignação. “E o que diabos vou fazer com isso?”. “Vai guardar, não se esqueça que é um presente, é seu, não vai jogar fora, perder, nem dar pra outra pessoa”. Ri-me. “Quem é que vai querer isso?”. Ele nada disse, mantendo-se sério. Eu sabia que gostava de parecer mais esperto e inteligente do que realmente era. Pegou um pedaço de papel e rabiscou algumas letras nele. Dobrou cuidadosamente, fazendo um quadradinho e me estendeu.

Peguei fazendo pouco caso e já ia abrir quando ele me deteve. “Não abra agora”. “Ué, e por que não?”. Disse apenas que faria mais sentido se eu abrisse depois, que eu saberia o momento certo para isso. Ele talvez pressentisse o que aconteceria. Talvez fosse apenas mais uma cena de efeito para impressionar mocinhas ingênuas. Mas foi aquele o nosso derradeiro diálogo, antes que partisse. Já longe de sua presença, guardei aquele papelzinho junto ao porta-joias com o anel que meu pai me deu naquele mesmo ano. Anos depois, tive que empenhar a joia, de modo que o porta-joia, de prata e aveludado por dentro, ficou apenas com o papel dobrado em seu fundo.

Muito tempo se passou depois disso. Já abandonei aquela altivez forçada de menina mimada. Vejo agora minhas netas e reconheço, porém, meu olhar arrogante naqueles olhinhos adolescentes. Ah, se elas soubessem o que sei da vida… Mas nunca me esqueci dele. Mesmo depois de todos esses anos que seu corpo jaz no frio dos Apeninos. Continuo com seu presente. Não nego que muitas vezes senti-me tentada a me desfazer dele. Em outras ocasiões, ele quase simplesmente se perdeu por puro descuido. Mas continua até hoje protegido no fundo da gaveta, como um segredo guardado a sete chaves.

O papel já está amarelado e as extremidades se desfazem. Mesmo com a tinta borrada, porém, se pode ler em letras firmes: “Liberdade”.

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Um comentário em “O presente

  1. Danielle disse:

    Gostei muito dos seus textos. Despretensiosos e profundos.

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