O teste

Não me lembro exatamente o dia em que chegaram. Recordo-me somente que, num belo dia, abri os olhos em minha cama e vi aquela estranha figura no canto do quarto, de pé e parada sob a penumbra. Não era possível distinguir seu rosto, ou mesmo se contava com um, apenas o chapéu estilo coco. Também era possível perceber que trazia uma prancheta nas mãos, como se estivesse anotando algo. De resto, era apenas um vulto apagado nas sombras.

Certo de que estava sonhando, voltei a deitar e fechar os olhos, mas logo o despertador tocou, acordando também a minha mulher. Ela se descobriu, sentou na cama e alongou o pescoço, de um lado e de outro, como sempre fazia todas as manhãs. Olhei para o canto vi aquele homem, ou pelo menos o que eu supunha ser um homem, no mesmo lugar, imóvel. Olhei então para a esposa e fiquei esperando a reação dela diante daquela situação. Gritaria pela polícia? Levaria a mão à boca em desespero? Para a minha surpresa, ela simplesmente se levantou e foi ao banheiro escovar os dentes, como se nada estivesse ocorrendo. Percebi então que só eu podia vê-lo.

Para falar a verdade, embora não me considere ateu, primo pelo ceticismo em seu (quase) mais alto grau. De modo que, embora intrigado, não entrei em pânico ou algo do tipo. Não achei que fosse algum espírito desencarnado em busca de vingança ou um desses encostos que tanto falam os pastores da TV. Era apenas um homem (suponho), com sua prancheta. Ao me levantar e calçar o chinelo, percebi que pendia levemente a cabeça para frente, como estivesse atento aos meus movimentos, para depois anotar algo na prancheta.

Algum tempo depois, tomando café da manhã com minha mulher e as crianças, notei a mesma figura no canto da cozinha. Na verdade, não poderia dizer se era o mesmo ser ou algum outro de sua espécie. Mas era parecido. E também trazia uma prancheta na qual escrevia algo de vez em quando. As crianças também não notavam sua presença. E ele permanecia ali, imóvel, anotando meticulosamente o que quer que fosse e incólume ao que se passava ao seu redor.

A terceira figura (ou seria a mesma?) apareceu na sala de estar. Percebi sua presença num sábado à noite, quando a família estava reunida assistindo televisão. Mesmo chapéu, mesmo jeito, a mesma prancheta e as mesmas anotações. Aos poucos, fui me acostumando àquela insólita presença.

Não me surpreendi quando os outros (ou o mesmo) foram aparecendo nos demais cômodos. Até mesmo no banheiro, no canto dentro do box, estava ele (ou eles), sempre prontos, incansáveis, anotando o que quer que fosse. Não sentia vergonha ou constrangimento por estarem ali, pois essas estranhas figuras transpareciam algo de profissionalismo e seriedade. Verdadeiro modelo de uma burocracia onipresente. Até mesmo nos momentos conjugais mais íntimos, lá estava ele (ou eles), atentos a qualquer movimento e escrevendo seus registros.

Causou-me, contudo, certo estranhamento quando passaram a me seguir na rua. No caminho do trabalho ou na volta para casa, refaziam meus passos, sempre à minha espreita, embora imersos na sombra. Um tempo depois apareceram no escritório. Na sala de reuniões. Na do cafezinho. Em determinado momento, percebi que estavam em todos os lugares, em todas as horas ou ocasiões. Dei por mim que estava sendo monitorado 24 horas por dia. Mas para que?

Cheguei à conclusão que estava sendo avaliado, testado de forma permanente. Fui aos poucos, inconscientemente, me reprimindo e me enquadrando nas coisas mais banais do cotidiano. Ao acordar com sede de madrugada, por exemplo, levanto-me e, cambaleando de sono, vou até a geladeira. Ao pegar a caixa de suco e levá-la direto à boca, detenho-me, olho para meu avaliador e sua prancheta, e vou até a pia pegar um copo. Na rua, já não acompanho mais as saias curtas das garotas nos dias de calor, nem ignoro os mendigos ou os meninos de rua que me abordam pedindo algumas moedas.

Tal mudança, mesmo que gradativa e nem ao menos radical (afinal, nunca fui um mau sujeito), não deixou de chamar a atenção. Alguns colegas de trabalho vieram me perguntar se havia me convertido àlguma religião. Já minha mulher ficou desconfiada, achando que eu estava tratando de compensar em casa alguma falta mais grave na rua. Eu, por mim, não lhes disse nada sobre eles e evito criticá-los, mesmo em pensamentos. Vai saber se meus perscrutadores podem ler minha cabeça. E eu quero me dar bem no teste, afinal, quem não quer?

Anúncios

Um comentário em “O teste

  1. Gostei muito, velho. Inquietante. abs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s