Uma questão profissional (ou de profissionalismo?)

Acabava de apertar a cinta-liga quando a campainha tocou. Os cabelos, levemente dourados, ainda molhados, umedeciam a blusa vermelha, deixando-a ainda mais transparente. Os ombros à mostra expunham mais que algumas sardas esparsas, as alças do sutiã preto e o colar madrepérola. Ainda olhou novamente para o espelho, iluminado nas laterais por várias pequenas lâmpadas, conferindo as linhas do intenso batom vermelho, antes de abrir a porta.

_Oh meu bem, cheguei a pensar que não estivesse… – disse, enquanto entrava no quarto, desafrouxando displicentemente o nó da gravata – O que eu faria sem você aqui, hein… – riu, sem deixar de esconder o tom irônico. Vestia um austero terno preto, que lhe moldava o corpo, começando estreito na altura do pescoço, percorria as protuberantes ondulações do abdômen para se estreitar novamente na altura das pernas. Largou a pasta, também preta, em cima da cama. Calvo, uns fios ainda resistiam impávidos no topo da cabeça. Tal sobriedade forçada certamente lhe conferia um aspecto mais envelhecido do que a idade que realmente possuía. Podia ser o CEO de uma grande multinacional, ou um parlamentar de renome.

_Nós marcamos às dez, às dez está marcado. Sabe que sou profissional… – respondeu secamente, sem olhá-lo, forçando uma seriedade ainda mais grave que o habitual. Prezava a liturgia das relações estritamente profissionais e fazia questão de demarcar essa fronteira.

_É, verdade… eu sei… E você também sabe que, se quisesse, poderia sair dessa vida. Te faria minha mulher, não importa o que as pessoas diriam – disse, para logo em seguida agarrar firme seu braço direito, beijando avidamente o pescoço enquanto colava a boca ao seu ouvido, onde sussurrou ofegante: “não consigo parar de pensar em você, é uma doença que está me consumindo lentamente, vai acabar me matando desse jeito, veja estou me humilhando…”.

_Pára, está me machucando assim! – gritou, tentando se desvencilhar – Já tínhamos combinado de não falarmos mais sobre isso… Já lhe disse que isso é uma ilusão, e a minha vida não é feita de ilusões. Se teve algo que aprendi bem cedo na vida é que não posso esperar nada de ninguém. Aqui eu faço as minhas regras, lá fora eu seria devorada viva, se não por você, pela sociedade – ainda disse, tentando se recompor e retomar o tom sereno e grave.

_Pois é uma puta mesmo! E gosta de ser puta, e vai ser puta a vida toda! – esbravejou, encolerizado. Seu rosto enrubesceu e as veias saltaram sobre seu crânio. Os ralos fios de cabelo colaram na calva molhada de suor. Estapeou seu rosto num gesto brusco, jogando-a sobre a cama. Ficou alguns segundos a observando, desfalecida, sobre o lençol. Desafivelava o cinto da calça com uma das mãos enquanto acariciava os cabelos levemente loiros, ainda úmidos, com a outra. Notou que ela percebeu seu movimento, pois começava a rastejar sobre a cama, tentando se afastar. “Shhhhh”, calma, tranquila, tranquila”, sussurrou, num tom lascivo e ameaçador.

Ela, porém, num rompante, conseguiu acertar um chute com o salto alto, que o atingiu em cheio na testa, arrancando um gemido seco e o obrigando a se levantar. Ao perceber que viria em nova ofensiva, com ainda mais força, ela conseguiu empurrá-lo com as pernas. Já trôpego pela primeira pancada, perdeu o equilíbrio e caiu sobre a penteadeira embaixo do espelho iluminado, batendo a cabeça sobre a quina do móvel. Estatelou-se desajeitadamente no chão, a cabeça levemente pendida para cima, os braços arquejados e as pernas trançadas, numa espécie de balé macabro. Uma mancha vermelha brotou no carpete, contornando a cabeça.

Ela se levantou, em choque, tentando entender o que havia acontecido. Precisou de alguns segundos, como que para processar os fatos, reconstruindo a cronologia dos acontecimentos em sua cabeça. Olhou por um momento sobre o corpo, imóvel. Recompôs-se, por fim, repetindo com sofreguidão, como um mantra “sou uma profissional, sou uma profissional”.

Respirou fundo.

Voltou a olhar o homem que jazia no chão de seu quarto, tentando calcular mentalmente seu peso. Não chegava a ser obeso, mas era certamente bastante pesado. Ainda que se considerasse forte, percebeu logo que seria impossível arrastá-lo dali. Parou por um segundo, antes de se levantar, com uma tensa e estranha calma e caminhar até a penteadeira. Abriu a segunda gaveta e de lá tirou a faca, envolta em uma capa de couro. Tirou a capa revelando o metal luzidio. Era uma faca de caça, guardada há tempos ali por segurança.

Aproximou-se do corpo e, sem qualquer hesitação, começou a destrinchar o pescoço, em movimentos rápidos e certeiros. Surpreendeu-se com a facilidade com que a lâmina ia cortando carne, veias e artérias. Teve, contundo certa dificuldade em romper tendões e a traqueia, mas nada que uma certa dose de paciência não desse cabo. Por fim, a cabeça calva do homem pendeu para o lado, já completamente livre do corpo.

Passou então aos membros, que não apresentaram maiores dificuldades. Sempre seccionando as articulações, com movimentos precisos, rompeu em pouco tempo os braços e pernas. O mais difícil foi o tronco. Notou que continuava demasiado grande para ser movimentado. Ainda mais com aquela massa gordurosa pendurada na barriga. Lançou então a faca ao abdome, um pouco abaixo das costelas, a fim de parti-lo em dois. Suspirou com a quantidade de sangue que saía dessa vez, encharcando o carpete. Sangue, gordura e pedaços de vísceras eram expelidos a cada golpe.

Por fim, com o serviço completo, acondicionou os pedaços em sacos de lixo. A cabeça em um, os dois braços em outro, as pernas precisaram ser divididas em quatro sacos, e o tronco, dois. Enrolou o carpete sujo e o colocou em um saco próprio. Foi até a pia do banheiro e enxaguou os braços ensanguentados, analisando se a blusa ou a calça apresentavam algum sinal do que acabara de fazer. Ao voltar, colocou cuidadosamente os sacos em duas malas. A faca voltou ao local original.

Pôs-se então a pensar o que faria com aquilo. Ideias não faltavam. Cogitou jogar aos cães do vizinho, que certamente dariam fim aos restos em minutos. Abandonar os pedaços de forma aleatória pela rua também era uma opção. Pensou até mesmo em oferecer à salgadeira da esquina, que podia tirar algum proveito nos pasteis e empanadas que vendia. Mas não, resignou-se. Não seria nada profissional de sua parte.

Anúncios
Esta publicação foi postada em Sem categoria e marcada , .

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s