Um homem que viveu

Ele se sentava naquele cantinho do boteco, com seu inseparável conhaque. Pegava a garrafa no balcão, levava para a mesa e ficava bebericando no copo americano até de madrugada. Segurava o copo com a mão esquerda e o cigarro de palha entrelaçado nos dedos da mão direita, cujos movimentos acompanhavam a marcação de suas frases. Nessa cidadezinha sem nada para fazer, a distração era ficar em volta de seu Enrique ouvindo suas histórias, que começava a contar geralmente no segundo copo e que terminavam quando sua voz já se arrastava, embargada, culminando invariavelmente numa grande gargalhada tossida.

De aspecto frágil, tinha os poucos fios de cabelo que lhe restavam brancos como fios de prata. Era franzino e a coluna encurvada o fazia parecer ainda mais baixo do que de fato era. Mas quando começava a falar, parecia crescer. Assim eu me lembro de seu Enrique.  Os espectadores de primeira viagem sempre recebiam suas histórias com um misto de descrença e deboche. Porém, os detalhes e o vigor com que o velho imprimia aos seus relatos era algo tão vívido que sempre acabava por arrebanhar a atenção dos mais céticos. Ninguém ali tinha dúvidas: estavam diante de um homem singular, testemunha e protagonista viva da História e, sabe-se lá porque, injustamente esquecido e perdido nesse fim de mundo.

Brotavam-lhe lágrimas nos olhos quando repetia uma de suas histórias favoritas de quando, ainda adolescente, cerrou fileiras junto aos milicianos na Guerra Civil da Espanha. Chegou à península com o seu tio, um comunista fugido da perseguição desatada pelo governo Vargas após a Intentona. “Meu tio que foi na verdade meu pai, me ensino tudo nessa vida, sobretudo, os valores que carreguei por todos esses anos”, dizia com carinho. Com a mesma emoção, narrava com detalhes as duras batalhas contra as falanges. A esperança dos primeiros meses sendo transformada em desespero em meio ao avanço das tropas franquistas e as sabotagens estalinistas. Nunca tínhamos ouvido falar naquelas palavras, mas decoramos pelo tanto que seu Enrique narrava aquelas histórias. As noites mal dormidas abraçado a seu fuzil, em meio aos tiros e bombardeios. “Adelante! /Gritan nuestros fusiles! Adelante!”, cantava, empunhando o conhaque diante de nossos olhos vidrados.

O bar se emudecia e ouvíamos apreensivos quando contava sobre Nina, seu primeiro amor. Uma militante soviética despregada das tropas do Exército Popular. Encontraram-na ferida quando empreendiam fuga de intermitentes ataques aéreos e logo se apaixonou por aquela garota apenas um ano mais velha que ele. “Seus olhos eram tão claros que serviam como um retrovisor enquanto eu a carregava sobre os ombros”.  Ela não falava inglês e seu Enrique dizia que, na época, apenas balbuciava umas palavras em espanhol. Mas conversavam com “a linguagem do coração”.

Derramávamos lágrimas que tentávamos disfarçar quando, com a voz trêmula, o velho narrava a morte de Nina, em seus próprios braços, atingida por uma bala no peito. “Ela segurou meu braço forte, olhou no fundo dos meus olhos e me fez prometer que continuaria até o final, aí suspirou”, dizia, secando o copo para reabastecê-lo logo em seguida.

Contava com dor que fora um dos poucos de seu batalhão que conseguiu escapar da ofensiva franquista, refugiando-se no sul da França. Ficou por ali, quase anônimo, até a invasão nazista. O bar, cheio e ansioso, esperava para ouvir as histórias da luta contra as tropas de Hitler, mas seu Enrique, metódico que era apesar do álcool, e sabedor do impacto que suas narrativas causavam, resguardava seu repertório e nunca misturava as histórias em uma só noite.

Qual um ator, as feições do velho e seu tom de voz mudavam drasticamente quando narrava a luta clandestina contra o nazismo e o governo colaboracionista francês. Batia na mesa quando se lembrava das traições de companheiros próximos e de até uma de antiga camarada com a qual esteve prestes a se casar. Pois seus relatos não traziam apenas atos heroicos, mas episódios de traição, arrependimento e amargura. “Essa é vida, meus caros, altos e baixos, alegrias e tristezas, isso é que é, o resto é conto de fadas”.

Libertada a França, seu Enrique viveu dias de glória em Paris. Meses depois, porém, retornou ao Brasil. Não conseguiria mais viver apartado de sua terra, embora se considerasse um cidadão do mundo. Alguns anos de tranquilidade se passaram antes que viesse o golpe e ele, então, aderisse à luta armada. “Nunca fiquei neutro na História, meus filhos, um homem tem sempre que decidir um lado, mesmo que esteja errado”, repetia, copo de conhaque em punho. “E o que escolhi para esse momento de agora é esse aqui”, levantava o copo, tossindo e gargalhando.

Suas histórias, intermináveis, incluem ainda um exílio forçado no Chile, os dias de temor após o golpe de Pinochet e uma nova estadia na Europa aonde, garante, conheceu Bergman, Truffaut e uma porção de gente que não fazíamos ideia de quem eram nem porque pareciam tão importantes. Arrumou um trabalho em alguns estúdios de cinema e chegou a fazer pontas em filmes que viriam a se tornar clássicos. “Só não me tornei uma estrela porque sou um pouco baixo”, justificava-se. Apenas ficávamos ali, copo em punho, admirando suas aventuras, invejosos e remoendo nossas vidas tão triviais.

“Mas enfim, pode-se dizer que você foi feliz, seu Enrique?”, perguntou retoricamente certo dia algum de seus admiradores. O velho, porém, não respondeu de pronto. Deu um belo gole de seu conhaque, tragou o cigarro lentamente, soltando a fumaça pelo nariz antes de pronunciar, olhando para a ponta do cigarro se consumindo entre seus dedos: “Não, meu filho, e isso não é importante”. Ante os olhares um tanto perplexos, remendou: “Pode-se dizer apenas que ‘fui’, e isso sim é importante”.

Poucas semanas depois daquele diálogo, seu Enrique nos deixava. Sofreu um infarto fulminante enquanto dormia. Nossa turma de bar recebeu a notícia com tristeza, mas também consolo, posto que não sofrera , mas partira até que tranquilamente para um homem de vida tão atribulada. Organizamos seu enterro e dividimos a conta da funerária, haja visto que não encontramos nenhum parente próximo. No velório, nos reunimos novamente e, como se estivéssemos no bar, relembramos emocionados suas principais histórias.

Em certo momento, notei um jovem rapaz próximo ao féretro. Segurava as mãos numa atitude de reverência enquanto olhava seu Enrique. Parecia-se bastante com ele, quase que uma versão rejuvenescida do velho. “Com licença, você é o filho do seu Enrique”, tomei coragem de indagar. Ele olhou calmamente para o lado e sem mudar a postura das mãos respondeu: “Não, não, sou só sobrinho dele, moro em uma cidade aqui do lado e fiquei sabendo do ocorrido”. Disse que mantinham contatos esporádicos e que há anos não o via ou tinha qualquer notícia do tio.

Não me contive ao ver ali, diante de mim, um parente daquele grande homem. “Você deve ter orgulho do seu tio, hein? Um heroi que viajou o mundo em busca de justiça”, carreguei nas palavras, pensando em usar aquilo mais tarde no discurso final. O jovem, porém, me olhou com curiosidade. “De que está falando? Meu tio nunca saiu dessa cidade”. Não consegui dizer nada enquanto o jovem fazia o sinal da cruz, desejava-me uma boa tarde e desaparecia.

“Quem era ele? Parente do Enrique?”, vieram me perguntar assim que o jovem saiu. Sim, respondi laconicamente. “Ele contou algo mais sobre o tio? O que ele disse?”. Nada, respondi, apenas falou que era um heroi. E de fato era.

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Um comentário em “Um homem que viveu

  1. Raíza Rocha disse:

    Muito bom, Diego!

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