O lead que nos define

 O suor escorria pelo rosto quando chegou à redação, atrasado como sempre. A recorrência do fato não o poupou dos olhares e gestos sutis de reprovação dos colegas. Aquele tradicional e irritante apertar de canto dos lábios, seguido de um movimento negativo com a cabeça. 

Tentava ainda ajeitar minimamente a camisa amarfanhada quando deu de cara com seu subeditor. ‘Atropelamento no centro, trânsito congestionado, um caos do caralho, bora, bora’, disparou sem nem dizer bom-dia. O motorista já o esperava quando desceu, desajeitado, equilibrando o gravador, o bloco de notas e o copo de café. ‘Vamo Chico’, apressou o motorista. ‘Seu’ Zé, gente fina.

Foi só dentro do carro que conseguiu enfim respirar. Mais uma pauta de trânsito, pensou desanimado, que figuraria provavelmente num canto obscuro do site, entre uma suíte das fotos vazadas da Carolina Dieckman e o resultado da Loto. ‘Cara é essa, seu Chico?’, perguntou ‘seu’ Zé, olhando de soslaio enquanto ligava o rádio do carro. Sujeito matuto ‘seu’ Zé. À beira da aposentadoria, respirou aliviado quando não viu seu nome na lista dos cortes.

‘Nada não, seu Zé, só pensando nas coisas’, se limitou a responder. ‘Xiii, última vez que fiz isso me meti em encrenca, filho’, disse o motorista, engasgando uma gargalhada misturada a uma tosse seca. Gente fina esse seu Zé. Chegaram, finalmente, à pauta. Tiveram que descer alguns quarteirões de distância por conta do trânsito, mas em dez minutos de caminhada chegaram ao acidente.

Uma viatura da companhia de trânsito já havia posicionado os cones em uma das faixas da avenida, redirecionando o trânsito para a outra. Um carro da polícia e uma moto estavam estacionados ao lado. Policiais, tranquilos, faziam anotações de rotina. Tentou captar o cenário para ter uma ideia geral do que ocorrera. A alguns metros do bloqueio, um corpo jazia sob um lençol branco. Um filete vermelho escapava, caminhando rumo ao bueiro. Ao lado do corpo, em aparente estado de choque, uma mulher de joelhos tinha os olhos vidrados no chão.

 Foi ao policial recolher as informações. Atropelamento. Morte instantânea. Motorista se evadiu do local. Algumas testemunhas viram o modelo do carro, mas ninguém anotou a placa. Gol prata. Já a companhia calcula 10 km de congestionamento. Esperando o ‘rabecão’ para liberar logo o fluxo.

Quando se preparava para seguir de volta à redação, Chico se deteve por um momento. Olhou para trás e viu novamente a moça, catatônica, de olhar perdido para o nada. Sentou-se ao seu lado e, cuidadosamente, pôs-se a conversar com aquela figura anônima e desamparada. Percebeu então que seu lead estava errado. E que deveria consertar isso.

Chegou à redação calado, correu ao computador e se pôs a escrever furiosamente a notícia que apurara.

‘Quando a catadora de papel Maria Cristina dos Santos, 24 anos, acordou nessa manhã, não poderia imaginar a trágica peça que o destino lhe reservara. Os primeiros raios de sol despontavam ainda quando deu o último beijo no marido e companheiro, Sérgio Alves da Silva, 25, servente de obras e dono de muitos sonhos. Estavam juntos há cinco anos já e planejavam se mudar do barraco para uma casa da COHAB.

Todos os planos e sonhos, porém, encerraram-se abruptamente quando Sérgio foi acolhido violentamente por um carro, no centro da cidade. Ironia trágica, pois naquela mesma semana o servente confidenciara à companheira o desejo de ter um carro, mesmo sabendo o quão distante estava aquilo já que nem contava com emprego fixo. Saiu de casa naquele dia animado e estranhamente alegre, assobiando um samba de Adoniran.

Conheceram-se muito jovens em uma favela perto dali. Após alguns meses de namoro, Sérgio a chamou para morarem juntos. O que para ela significou um pedido formal de casamento, até mesmo pela flor que Sérgio trazia nas mãos. Soube ela depois que havia sido furtada de um jardim da prefeitura. Apesar das agruras da vida, o companheiro sempre se mostrou amoroso e gentil, ainda que às vezes bebesse demais. Já Maria, religiosa, agradecia à deus pelo marido e tinha fé que tudo ia melhorar. Queria muito um filho, que, prometia a si mesma, não passaria por tudo que eles tiveram que passar.

Quando chegou ao local do acidente, avisada por uma conhecida que passava por ali, o corpo do companheiro já estava coberto pelo lençol. Alguém estendeu a ela o RG, amassado e manchado de sangue, que ela reconheceu de pronto. Perdeu as forças, caiu de joelhos e, tamanho era o desespero que a invadia, que nem mesmo lágrimas saíam de seus olhos.  Levantou o lençol e permaneceu abraçada ao corpo até a chegada dos policiais.

 Os sonhos de Maria Cristina escorriam pelo asfalto junto ao sangue de Sérgio. Atrás, uma fila de carros formava um grandioso cortejo fúnebre à morte daquele homem”.

Sem nem mesmo reler ou revisar, Chico postou sua notícia no ar. Alguém já havia deixado o título pronto, apenas aguardando o corpo da matéria. ‘Acidente causa congestionamento no centro’. Levantou-se e, sem dizer nada, deixou sua carta de demissão na mesa da secretária do editor antes de sair.  

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Um comentário em “O lead que nos define

  1. Douglas Dias disse:

    Parabéns, Diego! Ótimo conto pra nós lembrar da humanidade que muitas vezes perdemos no dia a dia. Abraão!

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