Céu e inferno

 A primeira vez que o vi, sua estranha figura quase se fundia ao cenário caótico da cidade, já escura naquela noite de julho. Estacionado no meio fio da avenida, parecia indiferente ao pesado trânsito do rush. Dava para distinguir um carcomido sobretudo que lhe protegia até a altura dos joelhos. Percebi que falava. Gesticulava energicamente com os braços, e uma bituca ainda acesa pendurada mão esquerda lampejava como um eufórico vagalume.

Não me contive e, furtivamente, caminhei até sua direção. Ao me aproximar, ele nem se deu conta de minha presença. Notei os cabelos desgrenhados, provavelmente há anos não sabem o que é uma tesoura, e o cheiro forte e azedo que exalava, instantaneamente  me embrulhando o estômago. Só pude decifrar algumas palavras desconexas que se misturavam ao ronco dos motores e buzinas. “… Sagrada virgem! De alvura adornada…”, declamava, ofegante. A voz rouca, ressoava como um trovão, mas logo se perdia entre a cacofonia urbana.

Percebi com o tempo que ele estava sempre naquele mesmo lugar, ao cair da noite. O mesmo velho sobretudo e a bituca que parecia parar no tempo entre seus dedos enegrecidos. “…trovão e fogo, conduzindo suas hostes estrelares pelo devastado deserto…”. Falava, compenetrado, a uma platéia imaginária. Ou para ninguém. Ou para si próprio apenas. Vez ou outra, algum transeunte apressado parava para contemplar aquela exótica figura, mas desistia assim que as palavras, aparentemente desconexas e delirantes, começavam a se distinguir entre o barulho. Olhares de indiferença e risos eram frequentes, mas ele permanecia impassível.

Perguntei aos comerciantes da redondeza quem era. Ninguém sabia. “Apareceu aí um dia, ninguém sabe de onde veio” limitou-se a dizer o dono de um boteco. “Mas pelo menos não enche o saco, o maluco”, fez questão de completar. Nunca comprou ou pediu nada por ali. Simplesmente apareceu e iniciou sua pregação ao nada.

Determinada noite, fui ao seu encontro na tentativa de questionar o que fazia ali. “O vento selvagem chora; e a noite é tão fria…”, compreendi logo ao me aproximar. Saudei-o com um lacônico, porém gentil “boa noite”, mas sem resposta. Com os olhos injetados e a fronte franzida, parecia absolutamente incólume ao que se passava ao seu redor. Quando já desistia de travar qualquer diálogo, agarrou-me com força o braço, o que me fez largar a pasta. “A verdade jamais pode ser proferida de modo que seja compreendida e não acreditada”, sussurrou sem mover a cabeça. Desvencilhei-me rápida e bruscamente. Apanhei minha pasta no chão e corri. Algumas poucas pessoas observavam curiosas. Quando parei e olhei para trás, notei que ele permanecia imóvel e fiquei envergonhado.

Alguns dias mais tarde, o homem parecia diferente. Mais soturno. Quase não se movimentava e o cigarro jazia apagado entre os dedos. No lugar de palavras retumbantes, apenas sussurros. “O vento selvagem chora! E a noite… é tão friapersigo a noite neste instante, e com a noite vou embora”. balbuciava, com um fio de voz mais rouco que o normal. Ficou então em silêncio, com o olhar absorto no infinito. De frente a ele, não sei quanto tempo se passou. Podem ter sido segundos, minutos ou até mesmo horas. Até que se despiu do sobretudo, abandonou-o no chão e desapareceu entre a escuridão e as tremeluzentes luzes da cidade.

Larguei então a pasta. Desfiz-me do blazer e me recobri com o sobretudo. E, sem mesmo saber como, ou por que,  pus-me a dizer ao infinito: “Declina o sol… levita a… d’alva”.

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