Chegou em casa e repetiu o mesmo ritual. De joelhos semiflexionados, abaixou a cabeça em uma posição reverente e fez o sinal da cruz. Segundos mais tarde, ergueu um tanto o rosto, beijou a palma da mão e tocou com a ponta dos dedos a imagem de Nossa Senhora, já bastante fustigada pelo tempo.

O altar improvisado ficava em uma velha estante, sobre a qual José empilhou uma caixa de papelão e uma embolorada lista telefônica. Arrumou o lugar para que a imagem estivesse no local mais alto da casa. Algo como cinquenta centímetros acima de seus próprios 1,70m, de forma que pudesse alcançá-la. De lá, a mãe de deus poderia ter plena visão e abençoar o pequeno cômodo de paredes frias e cantos úmidos. O mofo saía das sombras e expandia-se pelas beiradas, ameaçando tomar conta de tudo.

O importante, pensava, era ter fé. Era o que sua mãe dizia. Ela morreu quando ele acabava de fazer 15 anos. Foi acolhida por um ônibus desgovernado quando atravessava a rua para ir ao trabalho, morrendo poucos minutos depois. José ainda teve tempo de vê-la viva enquanto agonizava. Morreu segurando o inseparável terço, banhado em sangue, o que lhe conferiu a certeza que sua mãe havia partido direto para o céu.

Ela que teve sorte, pois somos nós que somos obrigados a viver nesse purgatório todos os dias, pensava. A casa resumia-se ao cômodo apertado que fazia as vezes de sala e quarto, com um carcomido sofá e um estreito criado-mudo, além da estante. Olhava, porém, com certa resignação a dureza da vida. A provação é o caminho da salvação para os justos. Era o que estava escrito na caneca de plástico deixada por sua mãe.

Naquela noite, José estava apreensivo. Pecados do passado voltavam para ser expiados. Aqui se faz, aqui se paga. É o que dizia um cartaz fixado na porta do bar ao lado. Secou uma garrafa de aguardente no copo americano, sentou no sofá e consagrou sua santa ceia. Milagre, no entanto, não realizava, a não ser a multiplicação da dor e a transformação das lágrimas em vinho. Proibido incomodar quem está bebendo, era o que dizia o chaveiro que sua irmão trouxera de Porto Seguro, no tempo em que ainda mantinham contato.

Levantou a cabeça num impulso com o repentino barulho lá fora. Algo como o som de uma lata caindo rasgou o silêncio da noite. Permaneceu, porém, com o corpo imóvel. Se deus é por nós, quem será contra nós? Era o que o pastor da TV na madrugada dizia. Não se assustou quando conseguiu ouvir passos se aproximando, assim como os latidos do cachorro do vizinho. E mais uma vez o silêncio, enquanto uma certa ansiedade ia tomando conta de seu peito.

Até que se levantou, caminhou três passos até se postar em frente à imagem de Nossa Senhora. Ajoelhou-se e baixou a cabeça. Manteve-se assim alguns segundos a mais que o de costume, até que, mais uma vez, beijou a mão para tocar a santa. Levantou os dois braços e, delicadamente, moveu a imagem para o lado. Com o braço direito estendido, apalpou o fundo da estante até encontrar. Apanhou e tirou sua 22 de lá, enquanto retornava a imagem para sua posição original com todo o cuidado. Fez o sinal da cruz e engatilhou. Era preciso ter fé, era o que a sua mãe dizia.

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2 comentários em “

  1. E não é que existe talento literário por trás das notícias do jornal…

  2. Poético, fico pensando em quem ele vai matar, será que são os mesmos corruptos que eu ando quero matar?

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