Só pudemos carregar a nossa dor

Do sereno se ressalta o cheiro da terra molhada. Pedacinhos de carvão chamuscados agonizam pelos cantos. Dizem que as grandes tragédias irrompem sem aviso, como a calma que antecede a tempestade. Naquele dia, o caos foi anunciado por um oficial de justiça.

Gritos, correria e um estrondo ensurdecedor. O que era aquilo? Não era um pesadelo, percebeu ao abrir os olhos e se deparar com o teto de concreto. Fitou as largas manchas de infiltrações que formavam círculos irregulares. Havia sonhado com aquela cena muitas vezes nas noites anteriores, mas não contara a ninguém. Guardava para si o medo, pois não poderia revelar qualquer fragilidade para a mulher ou aos filhos pequenos. Naquele momento, porém, não sentia temor. Só o coração acelerado e o sangue correndo forte nas veias.

_’Vamos mulher, pega as crianças, temos que sair daqui‘, gritou agitando a esposa, cujos olhos já se abriam, olhando assustados para os lados e tentando acontecer o que se passava. Logo, pôde ouvir o barulho do helicóptero se sobressair. Já conhecia aquele som. ‘Pega a nenê‘, gritou, enquanto o marido procurava pelo filho mais velho, um rapazinho de três anos. Do lado de fora, os fogos de artifício estouravam como uma final de campeonato. Era o aviso. Mas de que adiantaria quaquer aviso naquela hora?

O dia só começava a clarear quando saíram da pequena casa de alvenaria. Atravessaram a passos rápidos o estreito jardim decorado com os brinquedos das crianças e passaram pelo portão. Ganharam então a rua, afundando os pés na lama fresca. Ao seu redor, a loucura transformada em realidade. Pessoas correndo a esmo e gritando. O choro de crianças, convulsivo, era o prenúncio da tragédia. Uma fumaça branca e espessa começava a surgir bem à frente dos pinheiros, assim como o som de passos fortes e cadenciados.

Apesar da confusão, ele parou. Com o filho no colo, pendeu a cabeça e olhou para trás. Pôde observar a casa, ali, pequena, que construíra com as próprias mãos e em que depositara o pouco dinheiro que ganhara nos últimos sete anos. ‘É humilde, mas é minha’, gostava de repetir aos conhecidos, aos familiares, mas principalmente a si próprio. De fato, era a única coisa que construíra em todas as três décadas de sua vida. Pelo menos, a única coisa que poderia se orgulhar. Só voltou a si com a mulher lhe puxando bruscamente os braços. à frente, com o bebê apoiado ao peito.

Foi quando a fumaça os atingiu, queimando os olhos e as narinas , fazendo arder todo o rosto. Sentia como se milhares de agulhas estivessem perfurando os olhos. Apesar de cerrados, ainda conseguiu vislumbrar aquela mancha negra por trás da cortina espessa. Homens de preto enfileirados, brandindo escudos e gritando. “Corre vagabundo, corre filho da puta”, escutou. Às lágrimas do gás se juntaram lágrimas de raiva e dor. Apanhou uma pedra e atirou com todas as suas forças contra os invasores. E outra. E mais outra, enquanto gritava o tanto quanto podia. Mas eles avançavam batendo seus escudos.

Só parou quando aquela muralha negra se deteve à sua frente. Uma pancada no joelho o jogou ao chão. Muitas outras se seguiram. De bruços por sobre o barro frio, sentia a forte pressão na cabeça, nas costas e nas pernas. “Filho da puta! Favelado!”, distinguiu entre os gritos. Tentou ainda levantar a cabeça, a ponto de conseguir ver algumas das botas sujas de lama que lhe feriam. Mas logo, sua cabeça foi novamente jogada contra o chão. O barro, salgado, entrava pela boca semiaberta.

Em determinado momento, já não sentia mais as pancadas. Não ouvia mais nada. Apenas segurou com as mãos um punhado de barro. Apertou forte e viu que, entre a terra, havia misturado sangue e suas próprias lágrimas.

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