Leandro

Não me lembro ao certo quando eles se mudaram. Mas sei que a casa ao lado esteve vazia durante um tempo, até eles chegarem. Eram dois irmãos que vieram morar com mãe naquela rua de terra num bairro periférico da cidade. Mas pareciam não se importar. Ninguém ali parecia. Ao contrário de outras crianças da vizinhança, minha vida era um tanto reclusa, dedicada boa parte dela àquela caixa luminosa que sempre ocupou lugar de destaque na sala.

A vinda deles, porém, mudou algo. Terminaram-se os tempos de solidão e uma verdadeira era de aventuras tinha início. Havia ali fora todo um mundo a ser descoberto. E assim foi. O maior dos irmãos, Leandro, um pouco mais velho, alto, esguio, cabelos pretos e bem curtos rente à fronte, liderava aquela trupe de desbravadores.

De súbito, aquela rua de terra tornava-se um grande sítio arqueológico e esconderijo de tesouros inimagínaveis, como assistíamos nos filmes de Indiana Jones. Os grandes montes de entulho que os caminhões traziam de outras partes da cidade e empilhavam em nossa rua transfiguravam-se em montanhas prontas a serem escaladas por corajosos aventureiros. As pipas no céu eram batalhas épicas, verdadeiros duelos aéreos com os garotos da outra margem da rua. Venciam os mais habilidosos na arte do cerol, cuja preparação demandava um certo ritual na trituração do vidro, na mistura com a cola e a passagem na linha.

Éramos intempestivos. O trem que passava na velha linha ferroviária do outro lado da rua não escapava de ser fustigado por nossas pedras. Sob os gritos e ameaças de nossas mães, é claro. Velho trem de carga da Fepasa , fazia o chão tremer com sua ruidosa passagem. Antes de o trem vir, colocávamos pedras, galhos, madeira, e tudo o que podíamos carregar sobre os trilhos. A simples passagem da locomotiva esmigalhava qualquer coisa que encontrasse pela frente. Até mesmo as pedras derretiam. Vez ou outra tínhamos a notícia de quem alguém decidira tirar sua vida ali, mas nunca conhecíamos os detalhes.

É engraçado como, mesmo nos lugares mais hostis, tentam poupar as crianças de certas coisas. Ou pelo menos pensam que assim fazem. Certa vez brincávamos em uma pequena travessa que desembocava em nossa rua. Determinado momento, olhei para o lado e pude observar um homem vindo em nossa direção, trôpego. Quando ele chegou mais próximo pude reconhecê-lo. Tratava-se de um homem que morava com o pai nessa mesma travessa e cuja fama não era nada abonadora. Tinha a camisa empapuçada e tingida de vermelho. Achei que fosse tinta e não entendi quando Leandro gritou ‘vá pra sua casa’. Só pude ver o corpo do homem tombando no esgoto a céu aberto.

Algum tempo depois a polícia apareceu. Lembro quando os policiais puseram as luvas de borracha, pegaram o homem e o colocaram no camburão. Só mais tarde ficamos sabendo que havia sido esfaqueado pelo próprio pai. Morreu a caminho do hospital, disseram. O pai, conhecido como ‘Padeiro’ embora não soubesse de nenhuma padaria que ele tivesse ou trabalhasse, ficou apenas algumas semanas preso.

Em nossas vidas, porém, havia também lugar para a política. Já que estávamos em 1989 e a polarização daquele momento exigia um posicionamento sério de todos. Por isso, esperávamos algum carro passar pela rua e, caso ostentasse alguma estrela vermelha, por inocente que fosse, vaiávamos e xingávamos histericamente em meio à poeira que se levantava. Afinal de contas, se o PT ganhasse teríamos que ceder algum cômodo de nossas casas, já bastante apertadas, a algum sem-teto ou sem-terra. Pouco tempo depois, estaria cantando palavras de ordem contra Collor durante excursões do colégio…

Certo era que nossa amizade por vezes não atraía grande simpatia de minha mãe, preocupada que era com as ‘piadas sujas’ que Leandro nos ensinava ou com as revistas que ele poderia nos mostrar.

Um dia, porém, Leandro se foi. As brigas cada vez mais frequentes entre o proprietário daquela pequena casa e a mãe dos dois irmãos mostravam que nem mesmo aquele aluguel tinham condições de pagar. Numa tarde então, veio o caminhão levar todas as suas coisas embora. Vi Leandro, em cima do caminhão, desaparecendo. O velho proprietário esfregava as mãos de satisfação enquanto eu tentava engolir um pedregulho preso à garganta.

Às vezes me pego pensando nos caminhos e descaminhos da vida. Naquelas pessoas que nos desencontramos e tornamos a encontrar por simples obra do acaso. Em como o mundo é redondo, a realidade dinâmica e os caminhos imprevisíveis. Observo o guarda de trânsito. Será que alguma vez já o conheci? O mendigo bêbado que me ameaça na rua teria sido algum conhecido? E aquele homem morto nas páginas de jornal. Teria sido, alguma vez, Leandro?

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