Un Tango

Estava sentado quando a música começou. Disso se lembrava, claro. Como poderia esquecer? Os primeiros acordes daquele tango iam ressoando pelo salão, tomando conta do espaço. As muitas vozes que ouvia até então silenciaram. Passou a escutar somente os passos cadenciados se arrastando pelo assoalho de madeira. A princípio lentos, e depois sincopados. Gostava daquilo. Reconstruía a cena em sua cabeça com perfeição de detalhes. Naquela sua condição, era uma das poucas coisas que podia fazer. Criava personagens, dava-lhes nomes, personalidades diferentes, uma história própria.

Foi quando um leve toque em seu braço despertou-o dos desvarios e o trouxe de volta à realidade. ‘Dance comigo’, disse-lhe a voz, gentil, quase um sussurro clemente. Realmente não esperava por aquilo, mas de forma ágil, se levantou, e inclinou a cabeça de forma respeitosa à sua interlocutora. Com a mão direita tocou-lhe o ombro enquanto que, com a esquerda, tomava-lhe a mão de forma suave porém firme.

Pôde sentir o perfume quando os dois corpos se tocaram. Gardênia e calêndula fundidas em óleo e hálito quente. Imediatamente, tons de cores formaram-se em sua mente, numa sensual dança sinestésica. Essa sua condição trouxe também um outro tipo de percepção, com suas características próprias e sem necessariamente ter algo a ver com a realidade exterior. Vermelho vivo espraiava-se numa grande explosão dando lugar ao alaranjado quente e dourado, que se dissolvia em lilás escuro. Um verdadeiro big ben cromático pulsando ao ritmo da música.

Te quiero/como no te quiso nadie. Fazia muito tempo, mas sabia ainda como conduzir. Movimentos rápidos e precisos de pernas entrelaçadas. Um movimento conciso e forte capaz de arrancar um suspiro junto ao peito. Hoy te quiero más que ayer/pero menos que mañana. Passos e compassos. Deslizava a ponta do sapato no chão a ponto de provocar um som agudo. Sentia o delicado vestido de seda e temia feri-lo com suas mãos ásperas. Dançava como se fora capaz de prever o próximo movimento daquela estranha, apenas milésimos de segundos antes de ocorrer. Movimentos vigorosos aliás, quase bruscos, expressando quase uma raiva incontida. Y si un querer lo provoca/ es sublime, hasta el dolor. Podia sentir seu coração batendo um tom acima dos acordes. “Um coração sofrendo de paixão”, pensou.

O som foi baixando, os acordes se desaceleraram. Como se quiere en la vida. O movimento diminuiu até o derradeiro passo final, congelado em alguns eternos segundos. Aquela fragrância já espalhava-se pelo salão e, promíscuo, misturava-se a tantas outras. ‘Obrigada’, foi o que ouviu, antes de sentir os lábios tocarem nos seus. Nem teve tempo de responder, já que logo depois o perfume dissolveu-se para sempre. Foi o que, porém, permaneceu em sua memória. Nenhum nome, tampouco um rosto. Apenas um cheiro raro.

Muitos anos já se passaram, é certo. Percorreu muitos bares e salões da cidade atrás daquele odor. Hoje, chega a duvidar se aquilo de fato aconteceu ou foi mais um de seus personagens e suas histórias, que despegou-se da cabeça para lhe pregar uma peça. Na verdade, já não se importa mais. O que desejava, ardentemente, era achar de novo aquele perfume, real ou imaginário, que nunca mais encontrou. A não ser em seus mais recônditos e incofessáveis sonhos. Mi pasión es soberana/y reclama tu querer.

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