Nostalgia

Seu coração se acelerou quando ouviu o som da campainha. Levantou-se num sobressalto, ajeitando o vestido e olhando ao redor da sala à procura de algo fora do lugar. A não ser por aquela estranha situação, tudo parecia em ordem. Abriu então a porta, que dava para o quintal estreito, e de relance, já pôde reconhecê-lo apesar de sua vista já não tão boa.

Caminhou em passos lentos e hesitantes em direção ao portão e percebeu que ele sorria. Abriu o cadeado e empurrou o portão para fora. O coração disparado, a boca seca, não conseguiu dizer nada. Sentiu o rosto contrair-se ao seu num leve beijo, notou as suaves notas do mesmo perfume, a barba por fazer roçar sua bochecha. Só quando ele se afastou pôde ajeitar rapidamente as lentes dos óculos para notar suas feições. Ainda era bonito, pensou em silêncio.

_ Vamos entrar – conseguiu finalmente dizer, quase balbuciando. ‘Você continua linda’, pôde ouvir enquanto se virava para abrir a porta. Sua voz continuava macia e doce, quase musical, ainda que levemente rouca e um pouco mais grave.

_ Por favor, não repare na bagunça – disse ela fazendo jus à reconhecida modéstia – Recebi seu telegrama ontem mesmo e mal tive tempo de arrumar as coisas – ainda conseguiu mentir, omitindo a noite em claro varrendo e encerando o chão.

_Desculpe, realmente não tive a intenção de causar nenhum constrangimento… Só achei que tinha que vir, por algum motivo, não sei bem explicar… – As palavras tropeçavam sobre a língua e simplesmente caíam, esbaforidas.

_Não seja tolo, só quis dizer que tudo isso é muito repentino. Quantos anos foram? Vinte cinco, trinta? Já havia me conformado com a ideia de que morreria sem ver seu rosto novamente… – Dizia olhando para baixo, encabulada, sem jeito, não sabendo como tratar aquele homem que um dia fora tão íntimo e hoje, bem a sua frente, era quase um estranho.

Serviu o café na xícaras de porcelana. Herança da mãe, de quem também aprendeu as complexas regras da etiqueta. Simplicidade não é sinônimo de desleixo, era seu lema desde pequena. Ele olhava com devoção o movimento de seus braços servindo o café, mexendo a colher, misturando o açucar.

_Continua fina também, quase uma sinhazinha – disse sorrindo, pegando o café fumegante e sentindo aquele aroma torrado invadir-lhe as narinas. Os cabelos grisalhos já rareavam no topo da cabeça, e as linhas de expressão do rosto se afundavam em profundos sulcos. Mantinha, porém, o mesmo charme da juventude. O olhar confiante, a maneira de falar de peito cheio, aberto. Algum desavisado poderia, injustamente, tomar-lhe por pedante e presunçoso. Mas o que havia ali era um tipo de altivez de homem simples, aquilo que a cativou na primeira vez que o viu.

_E você o mesmo cavalheiro, retrucou ela, apertando a xícara ao colo e amassando o vestido. Suas frases eram sempre curtas e objetivas, como sempre fora as coisas de sua vida. Racionais. Pragmáticas até onde podiam ser. Do modo de se vestir aos gestos sempre calculados. Os cabelos prateados jogados para trás terminavam num lacônico coque. O vestido se ajustava ao corpo franzino e à idade que não se preocupava em dissimular.

E conversaram. As palavras foram se desinibindo e, gradativamente, fluindo com certa facilidade. Aos poucos, foram voltando ao tempo e rejuvenescendo. Mágoas e ressentimentos acumulados por décadas evaporavam junto à fumaça do café. Ele nem mesmo percebeu quando, distraído, tocou-lhe de leve a coxa com a ponta dos dedos no meio de uma frase entusiasmada. Já ela, como que atingida por um choque elétrico, se arrepiou até a espinha. Mas não achou mal. Muito ao contrário.

Já falavam agora rapidamente um ao outro, atropelando-se mutuamente. Era necessário colocar em dia trinta anos de conversas e confidências. O novo casamento, a nova esposa, os três filhos, o desquite, a mudança de emprego, a aposentadoria. O novo marido, a filha, os anos de doença, o sofrimento do esposo, a viuvez. Planos desfeitos. Planos refeitos. Poucas alegrias, muitas desilusões.

De súbito, uma pausa. Um repentino hiato naquele diálogo. Eles se entreolham, como que sabendo o que o outro imaginava. O coração acelera, as mãos transpiram. Os segundos se arrastam pesadamente. Cada movimento do ponteiro da sala é uma estaca batida na parede. Ela aperta a xícara, nervosa e desvia o olhar. Ele, porém, levanta a cabeça e os olhos, perscruta-a decidido. Não, não, não, ela pensa, por favor não faça isso, não faça! Ela praticamente implora em pensamento. Tarde demais. Ele vai falar.

_Você já imaginou, alguma vez, o que teria acontecido se…?
_Não. – responde ela em um tom seco e austero, sem deixá-lo finalizar a sentença. De olhos baixos e resignados, colocava fim ao assunto. Sabia pois que o mundo não era regido pelo pretérito imperfeito e que as histórias, assim como o café passado, não podem ser requentadas.

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5 comentários em “Nostalgia

  1. raizarocha disse:

    Fato. Amor é que nem café, não pode ser requentado.
    Muito bom o texto!

  2. E contra fatos não há argumentos!

  3. Danilo disse:

    Estava mesmo precisando de um pouco mais de arte para essa minha vida cheia de números. Você sempre encreveu muito bem meu caro, e esta a cada dia melhor.

    Passarei sempre por aqui!

  4. Dalton disse:

    Lindo texto!!!

  5. Tamiris disse:

    Adorei, grande acerto ler seu blog hj.
    Fez todo sentido.

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