Arbítrio

Carnês, mensalidades, água, luz, contas a pagar. Prazos, compromissos, o que tinha mesmo para fazer amanhã de manhã? De repente, parou. Olhou em volta: pessoas caminhavam apressadas, homens de ternos escuros suavam naquele insistente sol de outono. Senhoras carregavam bolsas e grandes sacolas de compras. Adolescentes com mochilas coloridas caminhavam alheias do mundo, enfiadas em seus I-pods. Para onde mesmo estava indo?

Não reconhecia aquele lugar. Isso não era possível, como havia parado ali? Recostou-se num poste e respirou fundo, tentando se lembrar para onde deveria ir. Para onde quer que fosse, sabia que estava atrasado. Não conseguia se lembrar de seu caminho, mas lembrou-se de outras perguntas, talvez mais urgentes. Olhou para as próprias mãos e se questionou, num quase murmúrio: “quem sou eu?”.

Por mais que se esforçasse, não era capaz de recordar seu próprio nome. Simplesmente não sabia quem era. Só sabia que estava ali. Começou a ser tomado por um princípio de pânico. O coração acelerou enquanto sentia a testa molhar de suor. “Calma, calma”, disse a si mesmo. Abaixou a cabeça e deu um longo suspiro. “Deve ser apenas uma espécie de colapso mental momentâneo”, disse, esperançoso. Vã expectativa, já que nada lhe vinha à mente. Sua cabeça era uma folha de sulfite em branco.

“Espera um pouco, vamos pensar”. Tentou ser racional naquele momento absolutamente surreal. Tornou a olhar para baixo. Vestia uma camisa social azul, as mangas dobradas na altura do cotovelo. Usava ainda uma calça de linho preta e sapatos marrons, lustrados, percebeu. Preso ao cinto, uma chave que parecia de um carro. Apalpou-se e viu que trazia um maço de cigarros no bolso esquerdo da camisa, já bastante amassado.

Notou que algumas pessoas olhavam-no, estranhando aquele sujeito parado na esquina, apalpando-se freneticamente, com cara de espanto. Resolveu seguir andando para não chamar mais atenção. Atravessou a rua e parou em frente a vitrine de uma loja.

Observou atentamente seu próprio reflexo no vidro e não reconheceu aquele rosto. Era como se visse um estranho pela primeira vez. Deveria ter seus 30 e tantos anos, talvez quase 40. O rosto quadrado e forte, linhas de expressão bem definidas rodeavam os olhos e os cantos da boca. A pele tinha cor de bronze e o cabelo bem negro, coroado com alguns fios brancos sobre as orelhas.

“Quem diabos é você?”, sussurrou ao reflexo antes de continuar a caminhar. Qual seria sua profissão? Aquele rosto grave lhe sugeria uma personalidade austera, um homem sério, com responsabilidades. Seria um executivo de alguma multinacional? Um advogado talvez. Teria filhos? Uma esposa? Amigos? Uma carreira de sucesso? Seria ele, enfim, feliz? As perguntas se avolumavam a tal ponto que perdeu novamente o fôlego.

“Espere!”, pensou. Apalpou a parte de trás da calça e quase soltou um grito ao encontrar. Claro, a carteira! Xingou-se por não ter pensado nisso antes. Era tão óbvio. Fez um movimento para apanhá-la, mas conteve-se. Era melhor procurar um lugar mais tranqüilo. Percebeu que havia uma pequena praça no próximo quarteirão. Em breve todas as suas perguntas seriam respondidas. O mistério desfeito, poderia descobrir seu nome, sua profissão, enfim, a sua identidade. Teria ali, com certeza, as fotos de seus filhos e de sua mulher, caso existissem.

A perplexidade deu lugar à expectativa. Apertou os passos para chegar mais rápido à praça. Encontrou um banco de madeira e tirou a carteira antes de se sentar. Era de couro, marrom, volumosa. Deveria ter tudo ali. Documentos, cartões, números de telefones para quem poderia ligar e pedir ajuda. Mexia a perna de excitação, levou a carteira ao nariz e sentiu o cheiro de couro. Balançava-a, girava na própria mão. Mas não abriu. Permaneceu longos minutos observando a carteira repousada sobre a coxa esquerda.

Até que se levantou. Tirou um cigarro do bolso e o enfiou no canto da boca esquerda. Se não tinha nome, passado, identidade, responsabilidades ou sequer um rumo, pensou, poderia ser quem ele quisesse a partir dali. Jogou a carteira na lixeira da praça e agradeceu aos céus por aquela benção.

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Um comentário em “Arbítrio

  1. Joana Ponte disse:

    Muito bom!
    Li e adorei, vou recomendar seus artigos para os meus amigos, afinal todos merecem uma boa leitura.
    Joana Ponte

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