El gran momento

Morte
Término da vida, cessação
De funções orgânicas vitais.
Um nada, vazio, escuridão,
Sumiço d’amigos e rivais.
Desaparecimento do ser.
A negação do querido ente.
Eliminação do pretender
Ter existência permanente.

(Expedito Ramalho de Alencar, Dicionário Poético)

Não sei que dia é hoje. Quando se está aqui, perde-se qualquer sentido do tempo. Nos primeiros dias, tentava calcular minha permanência através da visita do enfermeiro. Quatro vezes ao dia, ele vinha trocar o meu soro e conferir a minha pressão, além de me dar algo pra tornar tudo isso mais suportável. Morfina. Mas já há algum tempo, não sei dizer quanto, alterno momentos de inconsciência com lucidez, ou melhor, uma quase lucidez em que não se tem certeza de que algo é real, um sonho, ou um pouco de ambos.

Agora mesmo, não tenho certeza se estou realmente pensando isso ou se apenas sonho que penso… Enfim, que diferença faz não é verdade? Só aguardo o que vai acontecer em instantes e, confesso, tenho medo. Sim, eu sei, é ridículo um velho como eu, senil e moribundo, temer ainda o inexorável. Mas a verdade, meu filho, é que essa coisa de experiência e sabedoria que viria com os anos, não passa de baboseira.

Nunca tive religião, mas acredito em deus. Evidente que apenas me lembrava disso quando algo acontecia. Creio em karma também, ou algo do tipo. Sei que o que fazemos volta-se a nós, a favor ou contra. Li isso num desses livros vagabundos de auto-ajuda. Mas pensei “caralho, essa porra faz sentido”. Nesse quarto, por exemplo, percebe? Enquanto os outros pacientes esperam a grande hora confortados pelos seus, aqui não há ninguém. Ninguém mesmo, não é? E por isso temo o inferno, ou qualquer coisa do tipo. A balança do que foi minha vida pende para o lado errado, eu sei…

Não sou maniqueísta, é verdade, mas não colocaria a mão no fogo por minhas escolhas. Arrependimento é uma merda. Ainda mais quando se está imóvel nessa cama, com esses fios e tubos enfiados por todos os lados. Tenho certeza que tem muita gente que dariam tudo pra ver essa cena aqui… Mas aos diabos com eles! Nem tenho ódio ou ressentimento. Como eu consigo, você quer saber? Simples, sempre penso o seguinte: “daqui a 100 anos, vai estar tudo certo”. Não é mesmo, filho? Daqui a 100 anos, estaremos todos empatados. Ressentimentos, ódio, angústia, decepção, nada disso vai importar mais.

E no meu caso, nem vai demorar tanto assim. O que é isso? Meu coração bate mais rápido, uma taquicardia? Minha respiração acelera, sinto o peito subir e descer, cada vez mais rápido. Não consigo chamar ninguém, não adianta forçar a garganta ou tentar mexer a mão… Pra ser sincero, isso tudo não é tão diferente do que foi minha vida inteira. Não precisava de aparelhos pra respirar, mas nunca se pôde dizer que fui de fato livre. Sempre me senti um escravo das circunstâncias. A coisa que mais tenho pavor são as mudanças, de qualquer espécie… pra melhor ou pior, tanto faz. Sempre fiz tudo o que pude pra seguir incólume nessa torrente de inércia que é nosso cotidiano.

Meu coração acelera ainda mais, sinto meu peito quase explodir. Ouço vozes agora, agitadas, sobre mim. Descobriram enfim que algo não estava bem. Mas já é tarde, não é filho? É, eu sei. Mesmo assim estou com medo, muito medo, do que possa ter depois. Seja o que for, sinto se aproximando. Vem chegando cada vez mais perto, lenta e obstinada. O que é isso? Queria gritar, gritar, gritar bem alto! Não estou pronto pra isso! Não…! Ainda não! O momento vem chegando… As vozes aumentam, gritam, gesticulam, me sacodem com força.

Não sou egocêntrico ou algo do tipo! Sei que as coisas continuarão iguais. Mas mesmo assim não quero, não consigo largar o naco de mediocridade que é minha existência. É pedir muito, porra?!? Me deixe aqui, em paz, testemunha ocular do devir. Eles não me ouvem. Me injetam coisas, comprimem meu peito com força, quase quebrando as costelas.

Fique longe de mim, seja o que for! Espere, o que é isso? Tem algo lá… Mas não consigo ver o que é… Atrás da penumbra acho que existe alguma coisa, alguém, ou algo, não sei… O que é?… Não… Não sei… É… É… não!… o… o… o… nada?

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