O dia em que o mundo não acabou

_Você deveria ser preso por deixar essas cervejas estragando na sua geladeira! – bradou Elis ao apanhar mais uma latinha, abrí-la com sua costumeira habilidade, com apenas uma das mãos, enquanto segura firme o cigarro com a outra.

_Eu comprei esses dias, mas não consegui tomar – respondeu Guilherme – e, com aqueles malucos tentando reproduzir o big bang, achei um tremendo desperdício deixá-las aí enquanto o mundo é tragado por um enorme buraco negro!

_ Ah, essa desculpa é boa – disse Elis, sorrindo, batendo a bituca no cinzeiro – Você sempre faz isso. Compra esse monte de cerveja e depois não consegue tomar. Pelo menos não sozinho. Mesmo que o mundo durasse mais alguns bilhões de anos, elas continuariam mofando aí. Acho que essas latinhas seriam encontradas pelos arqueólogos das próximas civilizações. Se não sou eu pra te salvar…

_Bom, não precisamos dar sopa pro azar. Passe cá uma bem gelada. O melhor a se fazer é liquidarmos de vez essas latinhas e deixar como legado pras próximas gerações só a Monalisa, as pirâmides e talvez alguma revista com a Brigitte Bardot.

_Pô, não se esqueça dos quadros do Vik Muniz!

_Pelamordedeus! Pode virar pó com o resto das galáxias!

_Você é um filho da puta intelectualóide e prepotente. Se o mundo acabar de verdade só vai lamentar a humanidade não ter descoberto a tempo os seus preciosos escritos escondidos no fundo da gaveta! Não é?!?

_Bom, fique aí zombando… Mas vai que dessa vez acontece de verdade. E se o mundo, ‘plim’, terminasse tão repentinamente quanto surgiu? E se virássemos de repente só um aglomerado de íons, prótons e nêutrons a vagar eternamente pelo Universo! Qual sentido teria havido isso tudo?

_Oras, o mesmo que teria se durássemos mais mil, trezentos mil, um milhão ou um bilhão de anos. Simplesmente nenhum. Pelo menos não um sentido único, universal. Ou, pensando de outra forma, tudo isso teria tido sim não um, mas zilhões, ou infinitos significados, já que cada um constrói seu próprio significado. Ao universo e à si próprio.

_Você e seu relativismo absoluto! Me chama de intelectualóide mas é aí, uma pós-moderna que posa de gostosa com um livro de Foulcaut. E sem contar que essa resposta é a mais fácil de todas.

_Bem, é o seu ponto de vista. Eu respeito.

_Ah, vá se foder.

_Oh, que resposta inteligente.

_O lance é que o mundo pode mesmo acabar e não deixa de ser irônico termos sobrevivido a duas guerras mundiais, o Holocausto, o Vietnam, o perigo de uma hecatombe nuclear na Guerra Fria, o Plano Collor e o caralho para sucumbirmos aos caprichos de uma dúzia de nerds na Europa!

_Você se esqueceu de FHC e da seleção do Dunga!

_Se pensarmos bem, só o fato de termos conseguido existir até este momento já é uma proeza incrível. Como costumava dizer Saramago, a Humanidade é um desastre! Mas já que não sou tão cético assim, eu diria que conseguimos alguns raros e momentâneos lampejos de… não sei bem, talvez algo como uma autossuficiência de significados, um existir sem razão de ser ou necessidade de explicação.

_E quando você consegue enxergar esses tais “lampejos”? Quando fuma um?

_Pelo contrário, quando ouço Cartola, por exemplo. Há um momento em que, se você reparar bem, mas tem que prestar bastante atenção, chega-se a esse raro momento de autossignificação plena. É claro que isso não é uma resposta para toda a existência, já que não sou pós-moderno como você… mas é o mais próximo que consigo chegar dela.

_Nossa, Guilherme, pensou isso tudo agora, ou foi só pra me impressionar?

_Na verdade, foi só pra te impressionar mesmo. Mas sei também que você, infelizmente, é imune aos meus encantos, mesmo que estivéssemos à beira do fim do mundo.

_Bom, já que podemos deixar de existir a qualquer instante, preciso te dizer uma coisa.

_O que, Elis?

_Eu te amo, Guilherme.

O beijo selou aquela madrugada fria, enquanto os primeiros raios de sol cintilavam nos copos sujos da pia. E o mundo, Collor, FHC, Dunga, as cervejas, as pirâmides, Vik Muniz, assim como Guilherme e Elis, continuavam a existir, sem qualquer razão ou significado. Salvo em raros lampejos de epifania.

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4 comentários em “O dia em que o mundo não acabou

  1. raíza disse:

    cerveja chocando na geladeira é o fim do mundo!

  2. Taiomara disse:

    HAHAHAHAHAHAHAHA….. vc é o fim do mundo Diego!

  3. Um blog com 5 anos de longevidade! Fantástico! :p

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