À esquerda

Ela chegou de repente.

Ele caminhava distraído pela calçada, segurando seu cigarro com mão esquerda enquanto o braço direito resvala suavemente o braço dela. “Desculpe”, disse, sorrindo tímido ao seu lado .

“Não o conheço de algum lugar?” – ela pergunta, enquanto ajeita os grandes óculos escuros no rosto. O cabelo chanel, castanhos, não impedia alguns fios revoltosos despontarem soberanos ante o vento suave daquela tarde. O vestido curto deixava-lhe os joelhos à mostra, o que atraía furtivos olhares à sua volta, tanto os masculinos quanto os da sempre cruel recriminação feminina diante de uma semelhante.

Ele a fitava enquanto buscava desesperadamente nos mais recônditos cantos da sua memória aquele rosto. A pinta no canto do rosto… as bochechas coradas… Desistiu, o melhor seria inventar qualquer coisa a fim de estender aquele diálogo o máximo possível.

“Não estudamos juntos há alguns anos?” – inventou na hora, se arrependendo quase que imediatamente que dizia aquela frase, tão sem criatividade. Deu uma forte tragada e jogou a bituca longe com as pontas dos dedos, soltando a fumaça pelo nariz.

Ela riu com aquela tentativa ingênua de a impressionar. E ele se perdeu naquele sorriso. Pensou ali que sua vida nunca mais seria a mesma.

Conheceram-se, namoraram e foram morar juntos, sob protestos das famílias não acostumadas àquele tipo de estranha liberdade. Ele terminou Direito enquanto ela fazia arquitetura. Já estabelecidos, com empregos fixos, tiveram o primeiro filho. Logo após, uma filha.

Cresceram e conheceram a primeira crise conjugal. A primeira de muitas outras. Brigas, choros, discussões. Passaram por apertos financeiros também, felizmente efêmeros e logo superados. Viveram a felicidade mais genuína, assim como os inevitáveis momentos de dor. Chegaram a uma maturidade serena e, em que pese as dificuldades, feliz.

Logo depois, para a própria surpresa de ambos, vieram os netos. E outros. E mais outros. Aposentaram-se, dedicando-se então apenas um ao outro. Passeios, histórias, confissões, cumplicidades ao cair da tarde.

Uma história com um final feliz que durou até a próxima esquina.

“Bom, eu vou pro outro lado, a gente se vê”, ela disse, enquanto virava à direita. Ele, seguiu à esquerda e nunca mais voltou a vê-la.

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2 comentários em “À esquerda

  1. Wellingta Macêdo disse:

    Adorei.Um conto realista,que daria uma bela musica de amor não realizado. Belo e sensível, mas amargo como a vida.

  2. Yara disse:

    Bastava o ‘…poucas vezes eu falo’. Ainda assim quando você fala, diz o tão essencial.
    Mas o amor, me desculpe o Augusto dos Anjos, que gosto muito, nunca é fútil. São termos inconciliáveis…

    Belo Blog.

    Ósculo.

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