Inexorável

Foi um beijo salgado. Ele, que odiava despedidas, entendeu o significado daquele beijo misturado às lágrimas dela. Ela, que segurava o coração ante o sofrimento incontido dele, apertava-o contra o peito. Ficaram então abraçados entre choro e soluços, naquela tarde fria de outuno.

 Ele, que tentava não odiar, não conseguia segurar a mágoa. Num turbilhão de sentimentos, muitos deles contraditórios, perdia-se, tentando se agarrar naquele mais fácil de se levar: a culpa. Pois, pensava, ainda que não fosse um pensamento em voz alta, é muito mais fácil culpar a si mesmo ou alguém. É difícil entender que algumas coisas são simplesmente porque são. Sem objetivo ou determinantes. Isso escapa a nossa pretensa racionalidade cartesiana, e por isso o negamos.

Ela, imersa num mar de dúvidas, também recorria à culpa ao observar o sofrimento de quem tanto prezava. Tentou ainda amenizar a dor, tanto a sua quanto a dele. “Eu te amo”, disse ainda.

Inútil, porém. Não são as palavras que movem o mundo. Mesmo as ditas com sinceridade. Infelizmente, algumas coisas são inexoráveis.

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Um comentário em “Inexorável

  1. Priscila. disse:

    é preciso soprar as palavras em um vento que não pára.

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