Utopia

A última coisa que viu antes de cair foram aqueles olhos verdes perdidos na multidão. A pressão por sob suas costas o fez perder o equilíbrio. Pendeu ainda os joelhos tentando se erguer, mas uma segunda pancada, agora sob o ombro esquerdo, o jogou definitivamente ao chão. Fechou então os olhos enquanto as lágrimas escorriam. Cobriu o rosto com a camiseta rasgada para não aspirar mais aquela fumaça que já lhe preenchia os pulmões. E olhou novamente para o alto, procurando desesperadamente aqueles olhos verdes.

Tudo o que via, porém, eram outros corpos sendo derrubados à sua volta. Botinas pretas rasgando a fumaça e bandeiras vermelhas tremulando nervosas no céu. Explosões próximas o fizeram acordar daquele transe. Encontrou forças para se levantar e trôpego, caminhava sem rumo por dentro daquela fumaça espessa. Sentiu lhe agarrarem o fiapo de camiseta que ainda trazia preso ao ombro. “Vamos sair daqui companheiro”, ainda pôde ouvir, enquanto aquele braço surgido da fumaça o levava para longe dos clarões que brotavam no chão.

Aproximou-se das outras pessoas, espectros na névoa, perfilados numa linha imaginária. Do outro lado, podia escutar o batido surdo dos escudos, aumentando cada vez mais. Afastou com a mão o cabelo molhado que, colado ao  rosto lhe dificultava a visão, virou-se e tentou procurar, por trás da neblina, aqueles olhos. A batida e os gritos ficavam mais altos. Correu. Correu sem rumo ou direção. Apenas correu. Correu das batidas, da fumaça e dos gritos. Correu de encontro novamente aos olhos verdes que vira desaparecer.

Parou apenas quando sentiu uma violenta pressão sob o crânio, fazendo-o novamente dobrar os joelhos. Sua cabeça ficou então quente, e sentiu também o pescoço e os ombros se molharem com aquele líquido morno. Seus braços foram jogados para trás e os pulsos apertados por algo frio. Perdeu o ar quando teve o estômago contraído por aquele baque, mas não caiu novamente já que lhe seguravam os braços. Tentou ainda levantar a cabeça, mas percebeu a nuca presa por um bruto antebraço. Só pôde erguer os olhos à sua frente antes de o empurrarem bruscamente para dentro do carro. Com a visão turva pela fumaça, conseguiu finalmente enxergar aqueles dois olhos verdes à sua frente, fitando-o.

Foi jogado na parte de trás do carro, caindo por sobre outros corpos amontoados. Com um sorriso no canto da boca, sentiu o carro arrancar. Estava sendo levado não sabia para onde. Não fazia ideia do que aconteceria. Só conseguia pensar naqueles olhos verdes imersos na neblina e anônimos na multidão.

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2 comentários em “Utopia

  1. Lourdimar Silva disse:

    coisa mais linda essas palavras…

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